Pandemia do Covid-19 poderá trazer síndromes psicológicas e mudanças de hábitos

Especialistas alertam para um 'novo mundo' após isolamento social

Foto: Pixabay

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A pandemia do coronavírus trouxe profundas transformações em curtíssimo prazo ao nosso modo de vida e costumes. Desde que a ameaça do covid-19 se tornou real, vivemos em uma sociedade que está tomada por inseguranças e medo. Mas afinal, como tudo deve ficar daqui pra frente? Os hábitos adquiridos durante a pandemia, como lavar constantemente as mãos, carregar embalagem de álcool em gel ou usar máscaras serão comuns a partir de um futuro próximo?

Para a conselheira-secretária do CRP-RJ e coordenadora da Comissão Especial de Psicologia Clínica, Julia Horta Nasser, é possível que haja mudanças no subconsciente da população.

"Em primeiro lugar, temos que saber que normal é esse que a gente acha que vai encontrar. O vírus não vai deixar mais de estar entre a gente após o isolamento social. E essas estratégias de cuidado ficarão pra sempre, seja pro coronavírus ou qualquer outra enfermidade. E acredito que a máscara entrará nesse subconsciente, os hábitos de limpeza e a gente precisa assimilar isso. Os asiáticos já usam a máscara no dia a dia como forma de proteção da sociedade e é possível que, enquanto não haja uma vacina, essa tendência continue", afirmou Nasser.

Uma das preocupações da especialista é o desenvolvimento de outras psicopatologias.

"Não sei se há como afirmar se haverá aumento de casos de síndrome do pânico, de transtornos obsessivos compulsivo ou demais síndromes de ansiedade. Isso vai depender de como cada um lida com essa situação, mas ficar confinado em casa produz maior ansiedade e o risco de desenvolver essas doenças é real", conclui.

O filósofo e psicanalista Fabiano de Abreu acredita que, seja qual for o caminho que a Humanidade decida seguir, uma coisa é certa: a estrada não será a mesma:

"A caminhada da nossa espécie faz-se por estradas que nos colocam constantemente à prova. Todos os grandes eventos do mundo têm a capacidade de nos mudar. Cada guerra, cada pandemia, cada episódio climático, são frutos que produzimos para uma evolução necessária. Num dia tudo está normal, no outro tudo desaparece. E, quando abrimos a porta, o mundo que nos espera já não é mais o mesmo. É a força da impermanência nos mostrando que somos mortais."

Covid-19 pode moldar o mundo

Segundo o estudioso, a pandemia que vivemos neste exato momento é mais um desses acontecimentos que têm o poder de mudar e moldar o nosso mundo: "É um desses momentos que traz à superfície o melhor e o pior da humanidade. É um desses momentos em que o homem é invadido e dividido por sentimentos duais. Vivemos provavelmente a maior mudança presenciada por esta geração."

O filósofo também salienta que na clausura das nossas casas resta-nos o pensamento, muitas vezes voltado para o pior.

"Imaginar quantos dos nossos vão sucumbir a essa crise, mas sempre com aquela esperança de que a humanidade não irá perecer. Contudo quando isto acabar mudanças serão inevitáveis. Há uma fenda aberta entre o que fomos e o que seremos", afirma.

Para Abreu, culturalmente, politicamente, economicamente e globalmente haverá um antes e um depois do covid-19.

"O mundo conectado em rede, a era da informação, do acesso rápido aos conteúdos, o mundo global que quando posto à prova teve que se recolher. A ameaça criou novamente barreiras. As fronteiras voltam a reerguer-se e cada um se sente infinitamente mais seguro na diminuição da escala. Ora, temos a certeza de que não estamos divididos em países e distrito, a nossa cidade, a nossa freguesia, a nossa casa. Somos todos habitantes de um mesmo planeta. Mas para nos salvarmos e salvarmos os outros temos que reconhecer a nossa individualidade", concluiu Abreu.