Rede de solidariedade entre ambulantes mobiliza moradores de Vila Isabel

Comerciantes informais sem poder trabalhar por causa da pandemia sobrevivem de doações

Foto: acervo pessoal

Foto: acervo pessoal

Sem poder trabalhar por causa da pandemia de Covid-19, mais de 100 vendedores ambulantes que costumam atuar entre o Boulevard 28 de Setembro e rua Luís Barbosa no bairro de Vila Isabel estão conseguindo sobreviver graças a uma rede de solidariedade criada por um casal de moradoras da região que tem mobilizado doações de cestas básicas durante esse período de proibição das atividades

A vendedora ambulante Giselle de Lima e a advogada Maria Eduarda Aguiar haviam criado um grupo no WhatsApp em novembro do ano passado, bem antes do Coronavírus se espalhar pelo mundo. O objetivo inicialmente era reunir os trabalhadores informais do bairro para reunir e ajudar esses profissionais a obterem melhores condições de trabalho. "A Giselle teve a ideia de criar esse grupo porque ela notava que havia um pouco de desunião entre os camelôs, cada um estava por si, querendo batalhar sozinho. Ela quis agregar todo mundo, todos os trabalhadores informais de Vila Isabel num grupo só para que só para que eles pudessem se ajudar. Ver quem não tinha licença e dar informações como obter, entre outras questões que os camelôs passam nas ruas e precisam sempre de um apoio", explicou Maria Eduarda revelando que antes da pandemia elas tinham trabalhado bastante no Carnaval auxiliando os profissionais com Taxa de Uso de Área Pública (TUAP).

"Como chegou a questão do Covid-19 a gente começou a pensar como poderia fazer para ajudar e a Giselle entrou em uma campanha de arrecadação de cestas básicas. Como eu trabalho em uma Ong LGBT e tinha o contato de outras Ongs que já prestam doações de alimentos, cheguei também a conseguir a doação de umas quinze sextas e devo conseguir também mais vinte para o grupo", detalhou a advogada.

Ela ressaltou também a comoção de pessoas próximas na vizinhança e órgãos como o Movimento Unido dos Camelôs (MUCA) que última semana mobilizaram uma grande entrega de cestas básicas também. "É importante visibilizar isso para que a gente consiga alcançar mais pessoas que possam doar", afirmou.

Além de receber as doações, o casal está organizando uma vaquinha online (clique aqui para participar) que tem como objetivo arrecadar 2 mil reais para que sejam fornecidas até 30 cestas básicas para as famílias dos mais de 100 ambulantes cadastrados por elas no grupo do WhatsApp. Essa rede de solidariedade fica ainda maior quando eles próprios lavam seus colegas para o grupo, aumentando ainda mais o alcance das ações. São pessoas que nao tem nada, não conseguiram ainda o auxílio emergencial e tem 3 ou 4 filhos. Então precisam realmente dessa ajuda, já que não estão podendo trabalhar e não podem arriscar suas vidas indo para a rua com o risco de perder a mercadoria ou pegar um Coronavírus para trabalhar né"? Questionou Giselle, que revelou que a ajuda oferecida pela Prefeitura não foi suficiente. "Só que só beneficiou os camelôs que tinham TUAP, licença que a maioria não tem e a Prefeitura não facilita para que seja retirado", completou.

Uma das pessoas atendidas por essa ação social é Rejane Medeiros que trabalha na rua há 20 anos, sendo metade deles como legalizada pela Prefeitura. "Eu sempre tive uma rotina, trabalho como ambulante na rua Luís Barbosa vendendo capas de celular durante o dia, sou legalizada e trabalho como baleira a noite, eu e meu esposo. Antes dessa pandemia era tudo tranquilo, pagava as minhas contas, tinha o meu ganha pão. Depois que entrou a pandemia acabou com a gente. O movimento que eu tinha ali era o Shopping Tijuca, quando ele fechou acabou esse movimento. Como eu tenho muita alergia ao tempo, eu evito ir na rua, tenho ficado em casa mesmo", explicou ela, destacando também a participação do filho de Gisella no auxílio. "Muito atencioso, pedindo nas casas para ajudar a gente".

Também auxiliada pelo projeto, Fabíola Fernandes trabalhava há seis anos como ambulante, depois de já ter trabalhado como auxiliar de serviços gerais. Sem ser credenciada pela Prefeitura, ela não tem outra opção a não ser se arriscar diariamente. "Minha rotina nesse exato momento é correr atrás do pão de cada dia. Infelizmente não tem como ficar em casa, as panelas e a geladeira não esperam. Como dizia o falecido Betinho, "quem tem fome tem pressa" né"?